Desemprego juvenil no Brasil: os números e por que investir em qualificação é urgente
O desemprego juvenil no Brasil caiu nos últimos anos, acompanhando a melhora do mercado de trabalho brasileiro. Ainda assim, conseguir o primeiro emprego e acessar ocupações com melhores salários e proteção trabalhista continua sendo mais difícil para quem está começando a vida profissional.
Os indicadores melhoraram nos últimos anos, mas os jovens ainda enfrentam mais dificuldades para entrar e permanecer no mercado de trabalho. No 3º trimestre de 2025, a taxa de desemprego entre adolescentes e jovens de até 29 anos chegou a 10,1%, depois de ter alcançado 16,4% no período de comparação analisado pelo DIEESE. O número de jovens desempregados caiu de 6,9 milhões para 3 milhões, com redução especialmente expressiva entre pessoas de 18 a 24 anos. Veja a análise mais recente do DIEESE sobre juventude e mercado de trabalho
É nesse contexto que a qualificação profissional de jovens precisa ser discutida: como uma das formas de ampliar acesso a oportunidades melhores, sem colocar sobre cada pessoa jovem a responsabilidade individual por um problema que também depende do funcionamento da economia, das políticas públicas e das práticas de contratação das empresas.
O que significa desemprego juvenil?
Nas estatísticas de trabalho, o termo técnico utilizado pelo IBGE é desocupação. Uma pessoa é considerada desocupada quando não está trabalhando, está disponível para trabalhar e tomou alguma providência efetiva para procurar trabalho no período de referência da pesquisa.
Por isso, taxa de desocupação não corresponde simplesmente à porcentagem de pessoas que estão sem emprego. Quem não trabalha e não está procurando uma ocupação, por diferentes motivos, não faz parte da população desocupada utilizada no cálculo.
Essa distinção ajuda a interpretar corretamente os números relacionados à juventude e ao mercado de trabalho. Em 2025, o Brasil tinha 46,6 milhões de pessoas entre 15 e 29 anos. Desse total, 17,5% não estavam ocupadas, não estudavam no ensino regular e nem frequentavam cursos de qualificação profissional, o equivalente a 8,2 milhões de jovens. O contingente caiu 4,8% em relação a 2024, quando 8,6 milhões estavam nessa condição, e 25,9% na comparação com 2019. Segundo os dados mais recentes da PNAD Contínua divulgados pelo IBGE, outros 25% dos jovens não estavam ocupados, mas estudavam ou se qualificavam, enquanto 40,8% trabalhavam sem estudar ou frequentar qualificação profissional.
Esses grupos não devem ser confundidos. Um jovem pode estar desempregado e estudando. Outro pode estar fora da escola e do trabalho, mas fazendo um curso livre, cuidando de familiares ou procurando emprego. A realidade é mais diversa do que expressões simplificadoras conseguem mostrar.
Já discutimos essa diferença em nosso artigo sobre a chamada geração nem-nem e as barreiras enfrentadas por jovens fora da escola e do trabalho. Os dados mostram que 60% dos jovens que estavam sem trabalho e fora da educação regular no segundo trimestre de 2025 realizavam outras atividades, como buscar emprego, cuidar da casa ou de familiares e frequentar cursos fora da educação formal.
O desemprego caiu, mas ainda pesa mais sobre os jovens
O mercado de trabalho brasileiro apresentou melhora em 2025. No 3º trimestre, a taxa geral de desocupação chegou a 5,6%, então o menor nível da série histórica iniciada em 2012, segundo a PNAD Contínua do IBGE.
Entre adolescentes e jovens de até 29 anos, porém, a taxa de desemprego permanecia bem mais alta: 10,1% no mesmo período, segundo análise do DIEESE. A diferença é ainda mais evidente nas idades de entrada no mercado: a taxa chegava a 22,9% entre pessoas de 14 a 16 anos e 19% entre 17 e 19 anos, caindo para 10,4% entre 20 e 24 anos e 6,3% entre 25 e 29 anos.
A falta de experiência anterior ajuda a explicar parte dessa diferença, mas não é o único fator. Escolaridade, renda familiar, território, responsabilidades de cuidado, raça e gênero também interferem no acesso às oportunidades. Em 2025, por exemplo, a taxa de desocupação entre mulheres negras de 18 a 24 anos era de 16,5%, 1,6 vez a registrada entre homens brancos da mesma faixa etária. O dado reforça que a melhora do mercado de trabalho não ocorreu de maneira igual para todos os jovens.
Essas diferenças mostram por que não existe uma explicação única para o desemprego juvenil.
Conseguir emprego é apenas uma parte da questão
Olhar apenas para a taxa de desemprego pode produzir a impressão de que o problema está resolvido assim que uma pessoa consegue trabalhar.
Os indicadores sobre a qualidade dessas ocupações mostram um cenário mais complexo.
A melhora da ocupação entre os jovens não eliminou outra característica importante de sua inserção no mercado: os baixos rendimentos. No 3º trimestre de 2025, 42,8% dos adolescentes e jovens ocupados de até 29 anos recebiam no máximo um salário mínimo, proporção que chegava a 48,3% entre pessoas de 18 a 24 anos e a 87,2% entre adolescentes de até 17 anos. Entre trabalhadores com 30 anos ou mais, 30,7% estavam nessa faixa de rendimento.
Quando considerado o limite de até 1,5 salário mínimo, 68,4% dos jovens de até 29 anos estavam nessa faixa, o equivalente a cerca de 18,1 milhões de pessoas ocupadas. Entre jovens de 18 a 24 anos, o percentual chegava a 76,8%.
A questão, portanto, não é apenas abrir a primeira porta do mercado de trabalho. Também precisamos discutir a qualidade dessa inserção, a remuneração oferecida e quais possibilidades de desenvolvimento existem depois dela.
A informalidade continua presente no trabalho juvenil
A informalidade continua sendo uma dimensão relevante da inserção profissional dos jovens, embora tenha recuado nos últimos anos. No 3º trimestre de 2025, 39% dos adolescentes e jovens ocupados de até 29 anos trabalhavam na informalidade, sem vínculo formal ou CNPJ. A proporção havia sido de 49% no período utilizado pelo DIEESE como base de comparação, indicando avanço da formalização do trabalho juvenil.
O tema exige atenção especial quando falamos de adolescentes, porque o trabalho nessa faixa etária possui regras específicas. Antes dos 16 anos, o trabalho só é permitido a partir dos 14 anos na condição de aprendiz. Para menores de 18 anos, são proibidas atividades noturnas, perigosas, insalubres ou que possam prejudicar seu desenvolvimento. A Aprendizagem Profissional oferece justamente uma forma protegida de entrada no mercado, combinando formação teórica, experiência prática e direitos trabalhistas.
Onde os jovens conseguem trabalho hoje?
A distribuição das ocupações também mostra que os jovens ainda se concentram em funções com menor exigência de qualificação.
No 3º trimestre de 2025, 53% dos jovens ocupados de até 24 anos eram trabalhadores celetistas, cerca de 8 milhões de pessoas, e metade deles estava concentrada em apenas 15 ocupações, em sua maioria de baixa qualificação. Essa concentração ajuda a explicar por que ampliar o acesso à formação técnica, digital e profissional é importante não apenas para conseguir o primeiro emprego, mas também para aumentar as possibilidades de mobilidade e desenvolvimento ao longo da carreira.
Nem todo jovem começa a carreira com o mesmo repertório
Imagine duas pessoas de 17 anos disputando a primeira vaga administrativa.
Uma delas cresceu com computador em casa, estudou inglês, participou de cursos extracurriculares, conhece profissionais de diferentes áreas e recebeu ajuda para montar o currículo.
A outra teve pouco acesso a equipamentos, nunca fez um curso de idioma, não conhece pessoas que trabalham em ambientes corporativos e está participando da primeira entrevista profissional da família.
As duas podem ter capacidade para aprender a função. Mas chegam ao processo seletivo com repertórios muito diferentes.
Cursos gratuitos, mentorias, acesso à tecnologia e acompanhamento profissional ajudam a reduzir parte dessa distância. É por isso que organizações sociais podem ocupar uma posição relevante na transição entre juventude, formação e trabalho.
Formação técnica e habilidades humanas precisam caminhar juntas
Conhecer uma ferramenta ou executar uma tarefa técnica é apenas uma dimensão da entrada no mercado.
Quem está começando também precisa aprender códigos e situações que costumam parecer óbvios para quem já trabalha há anos: como apresentar uma dúvida, participar de uma reunião, organizar tarefas, escrever um e-mail profissional, receber feedback ou explicar uma ideia durante uma entrevista.
Nosso artigo sobre habilidades do futuro e as mudanças no mercado de trabalho aborda justamente a combinação de conhecimento técnico, adaptação, comunicação e outras competências que ganham espaço com as transformações tecnológicas.
Para quem está procurando a primeira oportunidade, também reunimos orientações práticas em como se destacar no mercado de trabalho quando ainda se está começando.
A preparação profissional precisa levar em conta as duas dimensões. Saber usar uma ferramenta pode abrir uma oportunidade, enquanto comunicação, organização e capacidade de aprender ajudam a permanecer e crescer profissionalmente.
As empresas também fazem parte da resposta
É incoerente discutir falta de experiência entre jovens sem observar como as empresas oferecem suas vagas de entrada.
Se uma oportunidade destinada ao primeiro emprego exige dois anos de experiência, inglês avançado, domínio de várias ferramentas e disponibilidade irrestrita, o próprio desenho da vaga exclui boa parte das pessoas que deveria alcançar.
Empresas podem contribuir para reduzir as barreiras de entrada quando:
- Criam vagas com requisitos compatíveis com o início da carreira
- Utilizam programas de aprendizagem profissional de maneira responsável
- Oferecem acompanhamento e feedback aos jovens contratados
- Desenvolvem mentorias e atividades de aproximação com o mundo do trabalho
- Ampliam seus canais de recrutamento para além das redes tradicionais
- Constroem parcerias com organizações que atuam com formação profissional
- Consideram diversidade racial, territorial e socioeconômica nos processos de seleção
- Criam perspectivas de desenvolvimento após a primeira contratação
Empregabilidade juvenil, portanto, não é uma tarefa que começa e termina com o jovem.
Como trabalhamos qualificação profissional na Vida Jovem
Na Vida Jovem, a preparação para o mercado de trabalho ocupa uma parte central da nossa atuação desde 2009. Trabalhamos com adolescentes e jovens de Heliópolis e de outras comunidades de São Paulo, combinando capacitação profissional, cultura, Mentoria Social e acompanhamento individual.
Atualmente, nossas formações profissionais incluem quatro áreas: Administração, Manutenção de Computadores, Web Design e Hotelaria e Turismo. A grade também trabalha inglês, informática, raciocínio lógico, comunicação e expressão, práticas de gestão e visitas técnicas. Conheça nossas áreas de capacitação e a atuação da Vida Jovem.
Essa combinação responde a uma questão que aparece nos próprios dados sobre desemprego juvenil. Uma primeira oportunidade não depende apenas de conhecer determinado conteúdo técnico. Muitos participantes também precisam descobrir quais áreas existem, aprender a apresentar suas competências, construir um currículo e entender como funcionam processos seletivos e ambientes profissionais.
Investir em qualificação profissional também interessa às empresas
Para empresas, apoiar programas de capacitação pode criar uma aproximação mais consistente com jovens que estão se preparando para a entrada no mercado.
Uma parceria pode incluir apoio financeiro, mentorias, visitas técnicas, participação de profissionais em atividades formativas e abertura de oportunidades de emprego compatíveis com os participantes.
Esse tipo de relação funciona melhor quando não se limita a uma ação pontual. A empresa conhece a organização, entende o perfil dos jovens, acompanha a formação e pode contribuir com informações sobre competências e mudanças observadas em seu setor.
Na Vida Jovem, construímos esse diálogo por meio de parcerias corporativas e da Mentoria Social. Empresas interessadas podem conhecer nossas experiências de parceria entre organizações sociais e setor privado e conversar conosco sobre possibilidades de colaboração.
Perguntas frequentes sobre desemprego juvenil no Brasil
Qual é a taxa de desemprego entre jovens no Brasil?
No 3º trimestre de 2025, a taxa de desemprego entre adolescentes e jovens de até 29 anos foi de 10,1%, segundo análise do DIEESE com base nos dados do IBGE. O indicador caiu em relação aos anos anteriores, mas continua acima da taxa geral de desocupação do país, que foi de 5,6% no mesmo período.
O desemprego entre jovens é maior do que entre adultos?
Sim. No 3º trimestre de 2025, a taxa de desocupação entre jovens de 18 a 24 anos era de 12,3%, mais que o dobro dos 5,2% registrados entre pessoas de 25 a 39 anos. Entre trabalhadores de 40 a 59 anos, a taxa era ainda menor, de 3,6%. Os dados mostram que a entrada no mercado de trabalho continua sendo uma etapa especialmente difícil para os mais jovens.
Quanto ganha, em média, um jovem trabalhador no Brasil?
O levantamento mais recente utilizado neste artigo não apresenta um novo rendimento médio único para todos os jovens de até 29 anos, mas mostra uma forte concentração nas faixas de menor renda. No 3º trimestre de 2025, 42,8% dos jovens ocupados recebiam até um salário mínimo e 68,4% recebiam até 1,5 salário mínimo. Entre os jovens de 18 a 24 anos, 48,3% recebiam até um salário mínimo.
Qual é a taxa de informalidade entre os jovens?
No 3º trimestre de 2025, 39% dos adolescentes e jovens ocupados de até 29 anos estavam na informalidade, sem vínculo formal ou CNPJ. Apesar da melhora observada nos últimos anos, isso significa que aproximadamente quatro em cada dez jovens ocupados ainda trabalhavam informalmente.
Por que a qualificação profissional ajuda jovens?
A qualificação amplia conhecimentos técnicos, digitais e comportamentais utilizados para acessar e permanecer no mercado de trabalho. O Ministério do Trabalho e Emprego inclui entre os objetivos de sua política de qualificação aumentar as possibilidades de obtenção de emprego, trabalho decente e geração de renda. Ela, porém, precisa ser combinada com geração de vagas, educação e práticas empresariais inclusivas.
Como a Vida Jovem prepara jovens para o mercado de trabalho?
Oferecemos capacitação em Administração, Manutenção de Computadores, Web Design e Hotelaria e Turismo, além de conteúdos como inglês, informática, raciocínio lógico, comunicação e práticas de gestão. Também desenvolvemos Mentoria Social, cultura e acompanhamento individual. Entre 2011 e 2024, mais de 3.500 jovens passaram por nossos projetos e 430 foram inseridos no mercado de trabalho.











